Friday, April 4, 2008

Arquitectar 07 - SQUARE

Espaço aberto ao sonho
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A casa contempla-nos do cume alcantilado,
enroscada sobre si própria,
recebendo o calor da tarde no dorso recortado no céu.
Um volúvel equilíbrio líquido projecta-a no abismo -
no imensurável vazio que separa a realidade do sonho.
Casa. Palavra tão ampla e tão cheia de recantos - como aquele lugar secreto que, nas horas crepusculares da infância, se transcendia muito para lá do seu tamanho e substituía o mundo.
Somos a casa das nossas memórias e sonhos . Habitam-nos. Habitamo-los.
O sonho molda a casa alimentando-se da memória dos lugares...

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A silhueta longilínea dobra-se sucessivamente em torno de um espaço verde, resguardando-o e escalonando-o em três andamentos ascendentes, correspondentes a outras tantas unidades estruturantes: técnica, social e íntima.
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O núcleo técnico emerge da cota baixa e permanece semienterrado. Em cima, aguardando a chegada do automóvel, a garagem abre-se numa ampla superfície envidraçada e assegura a ligação de serviço à cozinha. Em baixo, brotando do maciço rochoso, localizam-se as instalações destinadas à recolha, filtragem, purificação e armazenagem das águas pluviais, bem como os equipamentos de acumulação e distribuição da energia eléctrica gerada in loco (solar e eólica).

Um espaço de acolhimento, uma sala de estar e uma cozinha – três zonas de uma nave térrea que cresce em altura até abraçar o piso superior. Espaços fluindo sem barreiras, imunes às cambiantes programáticas que coabitam numa mesma unidade vivencial dedicada à socialização dos seus ocupantes. Rasgos generosos convidando o interior a espraiar-se pelo exterior adjacente, reduto protegido pelo corpo da casa que, suavemente, ruma ao céu.

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O betão branco define a tessitura dos dois primeiros núcleos. À opacidade da base, marcada pela parede giratória da zona técnica, responde a unidade social com uma progressiva rarefacção ao longo do seu trajecto ascensional, sussurrando aberturas com a subtileza de um murmúrio abafado pelo grito dos rasgos principais.
Soerguendo-se o necessário para proteger a zona de entrada, a casa encaminha-nos até ao piso superior pelo suave declive da sua espinha dorsal. Um traço de luz, embutido à altura da mão, serve de guia aos passos curiosos nos degraus suspensos que se prolongam para o exterior. O pavimento autonivelante de tipo industrial distribui-se uniformemente pelo espaço, promovendo uma leitura visual isenta de ruído.

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O tramo mais elevado do conjunto coincide com o de maior intimidade. O seu isolamento sobranceiro assegura tranquilidade e desafogo visual ao quarto do casal, aliados ao aconchego e vigilância do quarto das crianças. De permeio, uma área de estar multifuncional destinada à família – biblioteca, escritório ou “quarto de costura”-, com comunicação visual com a sala inferior e, através da pele translúcida, com a envolvente exterior.
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O núcleo íntimo possui um sistema estrutural que confere propriedades de leveza e rigidez ao conjunto, adequadas à transposição de grandes vãos com recurso a um reduzido número de apoios: uma estrutura em madeira revestida, exteriormente, com painéis solares. Em cada uma das extremidades, projectando-se para além dos limites de implantação, localizam-se os quartos. O espaço das crianças assume-se como zona de brincadeiras e de repouso, servido por uma ampla janela vertical, um pé-direito variável e uma janela “especial” para voar acima do mundo. Um ambiente onírico, permitindo a evasão espiritual indispensável ao desenvolvimento das faculdades dos mais novos e o recolhimento potenciador do sono, sinónimo primeiro do bem-estar.
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Uma instalação sanitária serve de apoio ao piso superior, nomeadamente ao espaço comum localizado entre quartos. Aqui, os painéis de madeira interiores são substituídos por vidro, recriando o aspecto exterior do edifício e tornando a pele da casa translúcida, revelando as células no interior dos seus tecidos e a paisagem para além destes.
O quarto do casal abre-se num grande envidraçado na face oposta à da entrada, corolário do percurso interno da casa, rematado por um terraço a toda a largura da divisão.
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A zona verde exterior empresta a sua vegetação à cobertura, num prolongamento natural da materialidade mas também da funcionalidade. Texturas e cores que se vão alterando no decurso dos ciclos biológicos, interagindo de modo variável com o edifício ao longo das estações do ano, numa relação cúmplice de apropriação mútua.
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Este plano inclinado acumula as funções de captação e encaminhamento das águas pluviais, visando o seu tratamento e futuro aproveitamento, sendo um dos componenetes do sistema WaterFall. A água é sumariamente filtrada pelo coberto vegetal, que retém as impurezas de maior granulometria, e conduzida pelos canaletes da laje até à caixa de filtragem, no sopé da cobertura. Passando através do crivo de seixos, dá entrada no tanque de recepção, situado no subsolo, e, por decantação, segue para a purificação mecanizada e posterior armazenagem na cisterna. Um sistema de bombagem introduz a água tratada na rede de distribuição doméstica, garantindo uma gestão conjunta com a água captada nos lençóis freáticos subjacentes.
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A casa dispõe de geradores energéticos próprios mas contempla, paralelamente, ligações às redes públicas de abastecimento de água e de electricidade, como salvaguarda de situações de menor produtividade dos seus sistemas autónomos.
A energia eléctrica indispensável ao funcionamento destes equipamentos provém, maioritariamente, de duas fontes renováveis: solar e eólica. A primeira é captada pelos painéis solares de revestimento do corpo superior, cujo funcionamento idealizado se baseia na orientação individual das células que compõem o painel e não no movimento deste como um todo.
O sistema, baptizado SunEye, permitiria a aplicação indiferenciada em panos de parede verticais ou horizontais, sem perdas na captação dos raios solares. Durante a noite, os painéis asseguram a iluminação presencial da casa, através da integração de pequenos LED’s nas suas células. Estes pontos luminosos formam uma rede RGB gerida por software dedicado ao controlo individualizado da intensidade luminosa e da cor, bem como à aplicação de rotinas de sequenciação, podendo criar padrões cromáticos dinâmicos.
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A captação da energia eólica fica a cargo do sistema BioWind, cuja génese conceptual são as velas de windsurf. As pás são dotadas de uma estrutura em alumínio, recriando os ramos de uma árvore interligados por uma membrana translúcida, e encontram-se acopladas em torno de um mastro em madeira, girando segundo esse eixo vertical. A aproximação biomórfica à envolvente natural permite uma integração mais efectiva do equipamento no contexto lúdico do espaço exterior, surgindo como um bosque artificial aberto às brincadeiras das crianças e ao seu despertar para as questões ambientais.
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A concepção do mobiliário integra-se na filosofia global de racionalização dos recursos, recorrendo a técnicas de reaproveitamento de matérias-primas e de reciclagem de materiais, fazendo uso, por exemplo, de compostos de desperdícios de madeira.
A linha de mobiliário Loop faz uso do bambu laminado, plyboo, para criar uma forma tridimensional fluida, partindo de uma superfície plana sujeita a um processo de dobragem. É adaptável a diferentes processos industriais e matérias-primas variadas, dando resposta a aplicações no interior e no exterior.
O conjunto modular HangOn foi concebido como um sistema baseado num número reduzido de peças moldadas em plástico reciclado e é dotado de uma grande polivalência funcional. Adapta-se a situações de estante - normais ou suspensas, rectas ou onduladas – mesas e conjuntos de arrumação para soluções domésticas ou comerciais.
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A casa não é um somatório de “coisas”.
É, antes, a progressiva ramificação de uma ideia, de um desejo, de um sonho...
A emanção de um princípio fundador, presente em cada insuspeitado recanto e legitimado no todo.


Pedro Sousa Rodrigues, Arq.to
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